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Sucot e o segredo da felicidade
Rebbetzin Tzipporah Heller
Normalmente a bagagem de alguém sempre chega antes da minha na esteira transportadora, portanto, como já estava acostumada com este fato, quando vi que minha bagagem tinha chegado primeiro quase não acreditei, nem nos meus sonhos imaginaria que seria a sortuda da vez.
Arquivei esta lembrança no meu “dossiê da felicidade”. O problema, porém, é que vinte minutos depois, meu mau humor e impaciência voltaram de forma familiar e confortável como um sapato antigo. A verdadeira felicidade já tinha ido embora novamente.
A sociedade ocidental tem como, um dos princípios, a busca da felicidade. Nós a perseguimos implacavelmente, mas será que a temos? Não tenho tanta certeza disto. Com certeza, ninguém está feliz quando tem fome, frio, dores ou se está sem companhia. Mas, a parte complicada é que o fato de estarmos satisfeitos, aquecidos, saudáveis e ao redor de uma boa companhia, não garante a felicidade.
Orchot Tzadikim, um dos trabalhos clássicos da ética judaica, nos apresenta uma teoria interessante: a felicidade não se relaciona ao que temos (como possessões, status, amigos, etc), e sim ao que somos. É deixar de lado o papel de um estranho no universo e se tornar mais atento ao constante amor, providência e sabedoria divina. O resultado é um sentimento contínuo de serenidade e contentamento que independe de fatores externos.
De forma alguma isto significa escapismo ou negação. Significa aceitação do fato de que estamos aqui para nos elevar e elevar o mundo ao nosso redor também e, portanto, precisamos da inspiração e desafios que D´us nos coloca para que isso aconteça.
Abençoado com oportunidades
Quando nos olhamos honestamente e perguntamos quais e quando foram nossos picos de felicidade, aqueles que deixam lembranças para toda a vida, o que descobrimos? Quase sempre estamos revivendo momentos de realização e conexão com o Criador. Entretanto, a doçura da realização não está separada dos desafios que temos que enfrentar quando nos comprometemos a fazer algo significativo. Tanto o desafio quanto a inspiração são presentes de D´us. A chave para a felicidade é aprender a reconhecer Seus presentes, o que chamamos de “contentamento” e “descontentamento”.
Observe as palavras de um homem, membro de um kibutz religioso:
Quando a guerra (holocausto) acabou, não tínhamos nada. Gostaria de construir, pois já havia tido o suficiente de destruições e cinzas. Conheci minha esposa na mesma semana que entrei no kibutz. Nos entendemos muito bem e precisávamos nos recuperar.Nossa única esperança era reconstruir a vida.
Nos casamos logo depois. Não tinha nada meu que podia dar a ela e não tinha dinheiro para comprar. Então comprei uma planta muito simples com as poucas moedas que tinha de trabalhos casuais que fiz. Guardamos a planta até hoje. Toda vez que a vejo, lembro-me de onde vim e como sou abençoado com a oportunidade de construir uma família.
Nunca encontraremos a felicidade se vermos somente o aspecto superficial da vida, sem examinar sua essência. O número que simboliza esta idéia é o sete. Por que o sete? Todos os objetos físicos têm seis lados, contando com a parte superior e a inferior. Descrevemos isto como “superfície”. Embaixo da superfície encontra-se a dimensão interior do objeto estudado. É a parte de dentro, e não a superfície, que dá forma ao objeto.
Similarmente, a parte superficial da vida não é sua essência. O número sete nos indica que sim podemos ter as duas partes, a superfície e sua essência, para alcançar a totalidade e a serenidade que a vida oferece.
Nuvem de glória
O shabat, feriados e o ano sabático (shmitá) estão ligados ao número sete. Deles todos só Sucot é chamada de “a estação da felicidade”. Mas...porque Sucot?
Um fato interessante é que Sucot não celebra um evento ocorrido numa data especifica (como no Shabat, o dia em que D´us descansou ou Pessach que é o êxodo do Egito). É a celebração da sobrevivência por quarenta anos no deserto, em barracas. Todas as exigências de uma sucá ( impermeabilidade, um teto feito de materiais retirados da terra, o telhado não deve estar totalmente coberto, as estrelas devem estar visíveis, etc) ajudam a dar um status de cabana.
Enquanto vivíamos em cabanas, éramos protegidos por nuvens de glória Divinas que foram enviadas para nos proteger de qualquer possível dano. A Torá nos conta que nosso caminho não era determinado pelos dons de navegação de uma pessoa e sim pela direção das nuvens que nos protegia durante o dia e o pilar de fogo, à noite. Vivíamos constantemente com estes dois desafios, como é simbolizado pela fragilidade da própria sucá e a inspiração das nuvens.
Uma sucá é definida por ter mais sombra do que luz, porém, mesmo assim, podemos ver as estrelas. A luz é fraca e suave, mas é visível. Está é a realidade em que vivemos, e pela qual atingimos felicidade e totalidade.
Sete formas
Como trazemos a alegria de Sucot para nossas vidas e como a mantemos? Mudando nossa forma de pensar. Quando olhamos a vida de uma forma que inclui D´us no nosso dia-a-dia, podemos mudar nossa vontade para aceitar os desafios ao invés de fugir e também se abrir para receber e dar amor.
Orchot Tzadikim nos apresenta sete formas de pensar que podem ajudar a mudar nossas vidas:
- Saber que, não importa quem você é e as escolhas negativas que fez no passado, D´us tem compaixão é nos ama mais do que a nós mesmos. À medida que estivermos vivos teremos oportunidade para encontrar o amor e conhecer nossos desafios.
- Aprender a reconhecer de onde vieram todas as coisas boas que temos na vida. É D´us que nos dá uma família, acesso aos amigos, e o melhor de tudo, é Sua presença viva que nos inspira com relação a nos mesmos.
- Não pense que D´us lhe deve uma esposa/trabalho/casa porque vive uma vida decente. Acredite ou não, D´us esteve sempre presente, mesmo antes de você existir, e continuará quando você se for. Em vez de pensar em termos de posse, aprenda a pensar honestamente. Somos os receptores constantes dos presentes de D´us e não podemos compensar.
- Não culpe as outras pessoas pelos desafios que têm na vida. D´us os projetou para você. Ninguém poderá maximizar ou minimizar a qualidade ou quantidade daquilo que está reservado para você enfrentar.
- Saber que seu coração é um livro aberto. D´us lê a sua mente e não se engana com ela. A felicidade depende do grau de integridade que teremos ao enfrentar os desafios da vida.
- Aprender a ter responsabilidades. A necessidade de estarmos despertos no mundo de natureza caótica e perturbado é muitas vezes precipitado pela nossa profunda falta de atividade espiritual.
- Ter estima pelo trabalho, pela necessidade de ganhar para viver, demonstra nossa criatividade. Encarar nossas limitações nos traz próximos a humildade e a ter uma relação honesta com D´us.
Estamos nisso juntos. Temos diferentes desafios e caminhos que podem nos levar a inspiração. Estamos ligados um ao outro. Essa idéia é simbolizada pelas quatro espécies que se juntam em Sucot. Elas crescem em climas diferentes e possuem qualidades diferentes, o etrog (cidra) é o coração, o lulav (palmeira) a espinha, o hadass (murta) os olhos e os arava (salgueiro) os lábios. Mas, em Sucot, juntamos estas quatro espécies e colocamos para cima, em reconhecimento do Poder que nos liga a um destino compartilhado.
A alegria que temos quando encaramos a vida com fé tem o poder de nos modificar como indivíduos e Judeus, e também o mundo todo. Os setenta touros sacrificados antigamente no Templo durante a semana de Sucot simbolizam as setenta nações primitivas, nas quais a sociedade se origina. Cada um do seu jeito, encontra o D´us de Israel e descobre as fontes de alegria na alma.
Que venha logo o dia em que toda a humanidade esteja sobre a promessa de estar com Aquele que nos sustenta e que possamos descobrir a alegria verdadeira da vida brilhando constantemente sob a superfície.
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