Miriam Sagan
Ir para o mikvê tornou-se uma obsessão. Eu queria ir mesmo sem saber o porquê.
Extraído do livro: "Total Immersion: A Mikvah Antology", editado por Rivkah Slonim
Eu vivo no antiquado lado oeste de Santa Fé, onde o bairro é pequeno e estranho, com casas de adobe situadas em terreiros de linho e malva-rosa e terrenos com uma gramínea suja e rala. Os senhores de idade passam o tempo regando o gramado com mangueiras de jardim. Toda casa tem um cachorro, e todos latem para mim quando passo pelas casas. Este é um bairro visitado pelos bêbados que saem cambaleando dos bares, é um bairro em que ninguém ganhará na loteria.
Porém, nas casas em que passo há uma paixão pela fé. Minha vizinha de idade, Grace C. Baca usa um alfinete com a Virgem de Guadalupe, nas janelas há várias estátuas de santos vestidos em rosários. No quarteirão abaixo, fica a escola de massagem para a cura holística, a Igreja Pentecostal Espanhola, e virando a esquina está meu marido, Robert, dirigindo uma Cherokee com o pára-brisa rachado. Ele é um padre Zen budista, com a cabeça raspada, rosários de Buda enrolados em seu pulso.
Virando a esquina, na Franklyn Street, fica a casa de minha professora de hebraico. À medida que caminho para sua casa, sinto o aroma de reza vindo de lá, como névoa depois da chuva. Meu coração bate forte quando eu chego na porta de sua casa. Naquela cozinha antiga encerrada com cera, aprendi as vogais hebraicas e como acender as velas de Shabat; preocupei-me com as duas esposas de Jacob e minha própria irmã Rachel; aprendi o alfabeto que uma vez fora proibido.
Eu cresci e fui criada tendo que acreditar que, embora fosse judia, o melhor que se podia ser, a religião por si mesma era supersticiosa e ignorante. Meu pai nos dizia: "D'us é para crianças e bobos, não existe nenhum D'us" e, mais importante, meu pai decidia em que deveríamos acreditar. Sem D'us, rabino, ou sinagoga. A autoridade espiritual de meu pai na família era absoluta. Ele controlava tudo e dizia: "Você é um ateu".
Eu não ousei tirar a autoridade de meu pai até os meus quase 40 anos. Pouco a pouco fui mudando. Pus uma mezuzá no meu estúdio recém-construído. Disse a minha amiga Carol que sentia saudades de algo judaico. Quando ela me disse que havia uma mulher Hassidica que ensinava Kabalá na esquina de lá, na hora soube que deveria estudar. Quando falei com Yehudis e lhe disse o quanto surpresa estava em encontrá-la, ela disse: "Quando o aluno está pronto, o professor aparece".
Assim que aprendi o alfabeto hebraico, comecei a sonhar. Via letras, grandes e escuras, subindo como portões sobre mim quando dormia. Estava lendo tudo o que podia sobre Judaísmo e feminismo, mulheres, espiritualidade. Tentava encontrar um lugar numa tribo de homens com seus talitot enrolados, onde não havia um lugar para mim. Até que encontrei a idéia do mikvê, uma piscina, água; tinha minha letra favorita "mem", afinal meu nome é Miriam com dois "mems" nele, e Miriam era uma fonte de inspiração, curativa, que me acompanhava sempre, não importando o quão perdida pudesse estar.
Depois das lições de hebraico, Yehudis me levou ao seu quintal para me mostrar algo, mas de alguma forma desviamos do caminho e ela abriu as portas do que sempre imaginei ser uma estufa. Dentro dela havia o mikvê, uma piscina que aparecia somente para mim. Aquele era o único mikvê de Novo México, talvez o único. E estava bem na minha esquina.
Voltei para casa pensando: "Eu preciso entrar neste micvê". Está se tornando uma obsessão; Eu quero mesmo sem saber o por que disso tudo. Comecei a sonhar com o mikvê, e não posso controlar meus sonhos. Até que finalmente disse a Yehudis: "eu quero entrar neste mikvê." Sei que deve haver muitas regras, e existem. Ela me disse para ler um livro que explicava como deveria ser feito. Eu comecei a ler. Sabia que tinha que esperar até minha menstruação, mas não imaginava que deveria ficar longe de meu marido por pelo menos doze dias.
Eu me aproximei de meu marido. Disse que não faria isso, que era ridículo. Mas ele foi a pessoa que encorajou e insistiu para que fizesse da maneira correta. Na minha frente havia um homem com a cabeça raspada e com um nome japonês, que se sentava sete dias por semana com as pernas cruzadas diante de uma parede. Ele acredita em rituais. Ele também é um moço judeu de Nova Jersey. Sempre achou positivo o fato de me aproximar do Judaísmo. É como se acreditasse mais do que eu que esta era a coisa certa a se fazer. "Doze dias" eu disse a ele, esperando que me dissesse que era tão irresistível que não agüentaria. Mas ele disse tudo bem.
Não gosto deste período de separação e não aprendi muito com ele com exceção de coisas ruins que já conheci, que sou dependente e carente e tenho medo desse afastamento. Não acredito que precise do micvê para o meu casamento. Afinal, estamos juntos há doze anos, temos uma filha, resistimos a doença, a morte e a hipoteca. E mais importante ainda, porque Robert passava algum tempo em monastérios Zen e porque sou uma escritora, há uma pequena solidão construída em nossa relação, algum caminho escolhido.
Então eu continuo, não pelo meu casamento, mas por mim. Ao menos parei de sonhar toda noite com um mikvê em que não posso entrar. Quando a noite certa chega, tomo um banho longo e me esfrego preguiçosamente. Eu relaxo. O pôr-do-sol bate no canto da janela do banheiro. Vou para uma aula de Kabalá na sinagoga, volto para casa, pego uma toalha e dirijo para o mikvê pelas dez horas da noite. Não é seguro andar neste bairro a esta hora da noite. Saio cantando em meu Toyota azul, longe de casa, longe do tempo, sob a cobertura da escuridão. Sinto-me da mesma maneira que senti quando corri para ver o nascimento do filho de minha amiga Deborah.
O mikvê parece iluminado pela luz azul. Vou descendo as escadas até a piscina. Depois da primeira imersão mal posso respirar, meu coração bate forte, meus pulmões parecem querer água em vez de ar, tudo se torna azul. Eu estou muito feliz, isto é real, eu estou na piscina, e a piscina está em mim, aqui é o lugar a que pertenço. Yehudis segura um lenço em minha cabeça, e eu repito a oração depois dela. Minha mente está vazia; não poderia fazer isto sozinha. Eu desço várias vezes. Agora estou rindo e me vestindo, vou para casa.
É Rosh Chodesh Elul, falta um mês para Rosh Hashaná. Não há lua no céu. Eu fiz isto, pois no fundo sabia, ou esperava saber, que havia um lugar para mim como uma mulher judia entre os judeus. Esta piscina na casa de Yehudis, cheia com as chuvas do Novo México, foi uma entrada, um início. Eu afundei na piscina, na letra mem, no céu sem luar, no meu nome.
Publicado no domingo, 08 de agosto de 2004.