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Promessas de amanhã
Betsey Krause

Se eu aprendi alguma coisa com a morte de minha filha de 16 anos de idade é que você nunca vai dizer suficientes vezes o quanto a ama.

Você nunca poderá segurá-los a seu lado, escutá-los e estar com eles tempo suficiente. Você não poderá jogar muitos jogos de tabuleiro ou passar muitas refeições juntos, porque a vida não oferece nenhuma garantia. Você tem que estar com eles enquanto os tem, porque depois pode ser tarde demais.

Nossa filha, Sarah, morreu inesperadamente por razões médicas desconhecidas. Ela era uma aluna exemplar, ávida violinista e cientista iniciante. Literalmente, a tínhamos num dia e no outro morreu, em minutos, antes de percebermos que havia algo errado. Os médicos não determinaram a causa de seu choque séptico, e neste momento provavelmente ainda não sabem. Seis meses mais tarde, imaginaram que podia ter sido um vírus, pois não encontraram nenhuma toxina bacteriana. Mas de onde veio e por que causou sua morte tão depressa ainda é um mistério.

Sua morte atingiu duramente a comunidade, pois Sarah era a "menina da casa ao lado." Seu único comportamento arriscado envolvia somente sua doçura e bolo de queijo. Sarah nem tinha começado a namorar ainda. Falava asperamente contra as drogas, o álcool e o tabaco; dirigia no limite de velocidade permitido e colocava seu cinto de segurança. Se Sarah fosse uma criança desobediente, as pessoas poderiam apresentar razões para sua morte, mas não o era e, portanto não poderiam. Ao invés disso, Sarah tocava sua viola e ouvia somente as estações clássicas em seu quarto. Estudava muito para estar no topo de sua classe de 400 pessoas.Era a ajudante na Escola de domingo, na véspera do dia em que morreu, e assistiu sua aula na escola religiosa de noite, com o mesmo entusiasmo contagiante que tinha todos os dias. E, no dia seguinte, Sarah foi "desconectada" da vida sem explicação.

Uma amiga minha, com seus 20 anos, cujos pais vivem longe de Ohio, na Califórnia, me confessou: "quando converso com meus pais agora, nunca desligo antes de lhes dizer o quanto os amo." Por causa da morte de Sarah, famílias que, pelo contrário, não tinham nenhum plano de férias começaram a viajar juntas. Por causa da morte de Sarah, famílias estão fazendo refeições juntas e se esforçando para continuarem assim nos feriados e comemorações. Por causa da morte de Sarah, pessoas consideram o fato de que não há garantias. Pois, se uma moça aparentemente saudável, popular, apaixonada pela vida morreu assim, sem nenhuma razão compreensível, nos deixa a possibilidade aberta a todos nós.

Desde que Sarah morreu esperei por um diagnóstico que pudesse transformar em causa. Embora saibamos que um diagnóstico não devolveria Sarah, estava em agonia por não ter um. Nunca pensei que invejaria a mãe da uma criança morta por um motorista bêbado ou por uma doença preventiva. Mas, de alguma forma, tive. Disse isso a um novo amigo que fiz desde a morte de Sarah. Sua filha freqüentava a mesma escola que Sarah e morreu alguns dias antes por overdose de drogas. Uma professora de uma escola suburbana de nosso distrito, a mãe da criança que morreu, levou o problema do vício e abuso de drogas para as escolas, os jornais e a comunidade. A morte da sua filha podia ter sido evitada e por isso está tentando prevenir outras mães de perderem suas crianças. Como a invejo por fazer a diferença aos outros em nome da sua filha.

Num outro novo contato de e-mail que fiz, desde a perda de Sarah, a pessoa perdeu seu filho de seis anos de idade num estranho acidente na mesa do refeitório da escola. Ele transformou a tragédia do seu filho numa iniciativa de segurança para as escolas de Ohio, o que agora faz parte da legislatura e é afetuosamente conhecida como Jared Law (Lei de Jared). Os pais de Jared fizeram a diferença para todas crianças do primário de Ohio.

Mas não sabemos o que matou Sarah, então não há uma causa óbvia para se empreender. Ou há? Tudo que sei é que quando Sarah morreu sabia o quanto nós a amávamos e vice-versa. Fico grata por isso. No mundo corrido em que vivemos, não tenho certeza de que todas as famílias se sintam seguras. Talvez a causa que podemos tirar da morte de Sarah é lembrar às pessoas que o amanhã pode não existir; então precisamos diminuir a velocidade de nossas vidas e se preocupar com nossas relações agora e não mais tarde.

O amanhã pode não haver, então precisamos arrumar tempo para estar com as pessoas que amamos, dividir nossas paixões e incentivar seus empreendimentos. Precisamos estimar e amar nossos filhos hoje em seus jogos de futebol, em seus concertos de música e em casa na mesa de refeições. E os filhos desobedientes? Estes precisam muito mais amor e atenção, pois correm um risco ainda maior. Embora pensem que são invencíveis, também podem ser “desconectados” da vida a qualquer momento. Como pais não podemos nos esquecer disto.

Não consigo expressar o vazio que sentíamos em nossas vidas com a ausência de Sarah. Embora tentássemos manter uma vida normal, nossas vidas tinham um “normal novo, diferente” desde que Sarah havia nos deixado. Nossa nova vida normal não incluía as risadinhas e disputas entre irmãs, ou a corrida para o banheiro de manhã. Não incluía também a energia contagiante que Sarah trazia à nossas vidas; não incluíam sua inocente ingenuidade e o fim de semana de pai para filha e suas tradições. No lugar disso, passamos a estimar nossa velha vida, aquela que nunca reconhecemos antes e só demos valor quando a perdemos.

Um mês antes de Sarah morrer, eu e ela sentamo-nos à mesa de jantar tentando solucionar um quebra-cabeças. Íamos conversando conforme organizávamos as peças. Eu lhe disse que havia algo muito errado naquelas peças. Ela tinha 16 anos e começava a se entender melhor com sua mãe. Eu lhe disse: “Sarah, as garotas adolescentes em geral não costumas se dar bem com suas mães, você deveria me odiar.”

Quando saiu da mesa, deu um sorriso malicioso e disse: “não se preocupe mãe, ainda temos três anos.”. Se tivéssemos aqueles três anos...

Para compreendermos nossa “nova vida normal”, aceitamos e envolvemos nossa outra filha, Anna, com muito amor e carinho. Brincamos e cantamos juntas, procurando sempre estarmos próximas uma da outra. Pois, sabemos muito bem que pode não haver amanhã, por isso temos que amar e cultivar nossas relações agora.