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Perdidos na Disney

Rabino Yaakov Salomon

Os seis minutos mais assustadores na vida dos pais

É a última chance. Um lugar onde as crianças se descobrem e os adultos encontram a criança que existe dentro deles.

Foi difícil dizer quem estava mais agitado na manhã da viagem. Minha neta, de seis anos, que passou muitos anos de sua vida criando um mundo cheio de fantasias e, a expectativa de visitar a Terra dos Sonhos, estava além de sua descrição.

E seu pequeno irmão, Yehuda, de três anos, não fazia idéia do que o esperava na terra do Mickey, Minnie e Pato Donald, mas sua intuição dizia que algo muito especial o aguardava.

Até Naomi, a bebê parecia mais agitada que o habitual. 

Meu filho mais velho, Naftali, o pai deste adorável trio, que estava guardando os alimentos, as máquinas fotográficas e os mapas do Google também tinha altas expectativas.

Mas, meu voto para a pessoa mais agitada da casa ia para minha nora, Layala. Mesmo não estando como eles, me diverti imaginando Layala submergir, de manhã até a noite, no universo do faz de conta cheio de charme e criatividade. O sol da Flórida brilhava forte naquela segunda-feira de manhã e nada no mundo iria atrapalhar nossa ida a Disney.

Assim ela pensava.

A família de cinco pessoas, que vagueava pela magia de tudo isso, começou sua aventura pelo tempo, espaço e imaginação. O riso, a admiração e a maravilha permeavam todo o momento naquele dia extraordinário.

Mas, até na Disney, o sol se põe e o crepúsculo agora chegava para as milhões de pessoas eufóricas e ao mesmo tempo muito cansadas.
Neste momento, deixarei meu filho, Naftali, descrever com suas próprias palavras, o que aconteceu em seguida:

Já passava das 19:00 horas e as crianças estavam exaustas e, ao mesmo tempo, muito felizes. Foi um dia cheio de mágicas e verdadeiramente inesquecível. Estávamos nos dirigido para as saídas, mas a maior parte das pessoas estava ocupada tomando seus lugares para o show de fogos de artifício noturno.

"Podemos ficar?”, pedia Layala muito mais sugerindo do que realmente perguntando.

As crianças já estavam bastante cansadas, e já tínhamos feito nossas paradas ao banheiro e a recordação final obrigatória, porém partir parecia muito difícil!  Mas, no final, não houve discussões. Dei um passo para dentro do parque novamente e Layala e Miriam já estavam na minha frente, com seus olhos cintilantes, na expectativa. Então, pus uma mão no carrinho de Naomi e passei a outra para baixo, para alcançar Yehuda e...e...e...de repente, ele sumiu!

Olhei para a direita e esquerda, frente e trás e nada...ele realmente tinha sumido...não estava nem mais a frente, nem atrás de nós. Não estava em parte alguma.

"VOCÊ VIU O  YEHUDA?",  gritei para Layala.

"NÃO!", foi sua resposta. “Você não o viu?”

Não. Eu não estava com ele, e o medo que bateu naquela hora, era o de outra pessoa tê-lo visto e levado.

"YEHUDA", gritei! "YEHUDAAAAAAAAH!"

Examinei cuidadosamente o mar de rostos que nos cercavam e, de repente, entendi claramente que os próximos 30 segundos seriam o meio minuto mais importante da minha vida. Estava com muitos pressentimentos ruins e terríveis arrepios.

Não muito longe do lugar em que estava, avistei um sinal assustador: "SAÍDA AQUI". Talvez algum louco tenha ameaçado e arrastado meu filho até a saída, o estacionamento....Estava desesperado, e minha mente não pensava em outra coisa.

Então, como um louco desequilibrado, corri para a saída e perguntei a todos que passavam: "por acaso você viu um adorável menino de três anos”, como se já não existissem 20,000 pequenas crianças adoráveis de três anos na Disney. Até o assistente uniformizado que trabalhava lá, guiando as pessoas para fora do parque, me olhou de forma perplexa e encolhendo os ombros, respondeu prontamente: “para falar a verdade, não”.

Fui apressadamente até Layala, que tinha o equilíbrio e a tranqüilidade necessária naquele momento desesperador. Ela dizia coisas como: "Calma, não vamos entrar em pânico", e, "devemos voltar ou andar mais devagar," mas, minha mente rodava em outra direção.

“Perdi meu filho".

"É minha culpa. Deveria ficar de olho nele”.

"Nunca verei Yehuda novamente”.

Tentei me recompor e tranqüilizar, mas estava submerso no pior dos pesadelos para um pai. Layala e eu tentamos mapear um plano estratégico, mas sabíamos que nosso tempo estava terminando. Poderia ser “um mundo pequeno afinal”, mas o parque de diversão era enorme, e ele poderia estar em qualquer lugar.

Decidi então voltar ao banheiro, de onde tínhamos acabado de sair, com a esperança de que, provavelmente, Yehuda teria ficado lá.
"Yehuda", chamei, movimentando-se rapidamente por todos os boxes do banheiro.

"YEHUDA!!! YEHUDA!!!"

Sem resposta.

Cinco ou seis minutos se passaram e a noite estava chegando. Nossa esperança diminuía rapidamente. Encontrá-lo na escuridão era quase impossível. Só de pensar no medo que ele sentia naquele momento, era difícil demais de suportar.

E, de repente, como se tivesse caído do céu, ele apareceu. Estava passeando, um pouco confuso, mas não muito assustado, e tentava encontrar o caminho de volta.

"YEHUDA!!", eu gritei.

Abracei meu tesouro fortemente em meus braços e o apertava, quase machucando-o. Sentia o sangue correr pelas veias como um oásis de alívio inigualável.

Não sabia ao certo onde ele estava. Ele disse que estava no banheiro, mas eu não o tinha visto lá. Mas, quem se importa com isso agora?Ele voltou e toda a provação e dor pela qual passamos durante sua ausência, seis a sete longos minutos, tinham terminado.

Há alguma dor no mundo comparada a da separação? Acho que não. Qualquer pessoa que já passou por essa experiência, a agonia da separação de uma pessoa querida, sabe como é difícil e não pretende visitar o lugar novamente.

O Povo Judeu tem um nome muito especial. Somos chamados de filhos de D´us. E Ele criou um Mundo Mágico para que nós nos divertíssemos mesmo com 70, 80 anos ou mais. É o chamado planeta Terra. A entrada é gratuita, mas muitas vezes está lotado, e cada percurso que fizermos pode ser muito valioso.

No século passado, o problema dos “filhos que se perdem”, alcançou uma proporção  epidêmica. Todo dia D´us olha para o seu mundo e percebe como,cada vez mais e mais pessoas se afastam de sua descendência. E não é somente uma ou duas pessoas, e sim milhões. Ele os procura, os espera na saída, mas não os encontra em nenhum lugar. Eles se distraem e desviam por causa de uma tentação, sucesso, poder ou alguma tolice qualquer. E logo se separam Dele.

E, em algum lugar lá em cima, D´us está chorando.

"YEHUDA!! RACHEL!! MARK!! BRITNEY!!

Mas não há respostas; só mais assimilação, apatia e agonia.

Dois mil anos atrás, quando Seus filhos se distanciaram de si mesmos, D´us respondeu. Declarou seu desapontamento destruindo o Templo, que tinha sido construído para Honrá-Lo, duas vezes. E é durante o período de três semanas, até Tisha Beav, que houve essas tragédias, o momento em que paramos para refletir e lamentar com relação a estes acontecimentos dolorosos.

Perder um filho por alguns minutos é uma grande provação, porém perder milhões de filhos todos os dias é uma catástrofe. E somos testemunhas desta perda, que nos entristece a cada dia.

Não podemos esperar que os filhos que se perderam apareçam de repente. Se não pudermos fazer nada a respeito, podemos, ao menos, pensar na dor que D´us sente, e planejar algo que possa trazer Seus filhos de volta para o caminho certo. Meu filho teve sorte. Naquele dia maravilhoso, no mundo do faz-de-conta, ele foi encontrado.

Mas, será que D´us encontrará Seus filhos?