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No Palácio do Rei


Rabino Noah Weinberg


D´us é nosso Pai no céu e o Rei do Universo. Conectar-se a essa fonte é o que todo ser humano almeja.

Conta-se uma parábola sobre um jovem príncipe. Ele foi seqüestrado de seu palácio e criado como um trabalhador do campo, muito longe das riquezas e glória da casa do rei. Então, o rei enviou emissários pelo reino para encontrar o príncipe, e finalmente, após muitos anos, o encontrou.

Quando o rei soube da novidade, mandou imediatamente seus mensageiros para trazê-lo de volta ao palácio. O príncipe, por sua vez, não quis ir, estava relutante, pois não conhecia nada do rei e não sabia que era seu filho. O príncipe, que conhecia somente o vilarejo em que morava, nem sabia o que significava “palácio”.

Mas, os mensageiros do rei eram persistentes, deram-lhe roupas de príncipe, o colocaram no cavalo e o levaram a cidade.

Ao chegar ao palácio, estava com muito medo. Tudo parecia tão imenso e imponente. Não sabia o que fazer no palácio, e pensou “sou um estranho aqui e nada disto é meu, o que o rei quer comigo?

Em seguida, os mensageiros o levaram a uma sala e lhe contaram que o rei se sentava lá. Ele ficou preocupado. Como o rei o receberia?

As portas se abriram aos poucos, o príncipe viu o rei, a pessoa mais poderosa de todo reinado, cujas palavras matavam ou salvavam pessoas da morte. Estava receoso. Não queria se aproximar. De repente, o menino percebeu:  “não é o rei, é meu pai!” Eles se abraçaram fortemente.


Explicando a parábola

É como em Iom Kipur, em que desde o primeiro dia de Elul, um mês antes de Rosh Hashaná, começamos nossa jornada para ver o Rei. Em Rosh Hashaná, estamos no palácio do Rei, receosos e com medo diante Dele, esperando o julgamento. Em Iom Kipur, somos Seus filhos.

No mundo moderno, torna-se complicado amar a um rei benevolente. Pensamos que são monstros ditadores e, além disso, costumam ser o alvo das revoluções.

O conceito judaico de rei, porém, é diferente. O rei de Israel tem poder limitado pela Torá: ele não passa seu tempo juntando riquezas e bens e deve levar uma cópia da Torá sempre, para não esquecer de suas obrigações. Os reis israelitas devem ir ao campo de baralha e ficar na linha de frente com seu povo! Eles têm muito poder, que somente é usado para servir ao povo. Ele utiliza seu poder para assegurar uma sociedade em que as pessoas possam viver pacificamente e desenvolver todo seu potencial.


Amor sagrado

O Cântico dos Cânticos é uma canção de amor entre um homem e uma mulher. Segundo o Talmud é o texto bíblico mais sagrado. Porque? Pois o amor é uma expressão de nosso desejo profundo de se conectar a D´us.

“Beije-me Ele com os beijos da Sua boca; porque melhores são os Teus amores do que o vinho. Para cheirar, são bons os Teus ungüentos; como o ungüento derramado é o Teu nome; por isso as virgens Te amam”.

Imagine uma mulher que ganha de presente um lindo anel de diamantes e fica impressionada. Todos os lugares que vai, mostra seu anel as pessoas, um  diamante impecável. Até que, certa vez, o mostrou a um joalheiro, e este, observando minuciosamente com seus óculos especiais lhe disse: “há uma falha nele”.

Ela não mostrou seu anel a ninguém mais, talvez nem o usasse. Era o mesmo diamante, que parecia tão bonito, mas agora, sabia, não era um diamante perfeito.

Qual era o problema? Porque simplesmente não fingia que o anel era perfeito? Pois ninguém iria perceber a falha, somente o joalheiro! É porque almeja por algo real e perfeito na vida, se soubesse que não era real, mesmo que mais ninguém percebesse, não poderia sentir prazer em usá-lo.

Então conosco também, no fundo, queremos tomar a direção que nos leva ao que é perfeito, completo.

As primeiras letras hebraicas do verso “Eu sou do me Amado e o meu Amado é meu”, formam a palavra Elul, mês que nos leva a Rosh Hashaná. Ansiamos por D´us, assim como Ele procura por nós.

 

À Procura de significado

Observe uma outra situação. O rapaz trabalha no aeroporto, retirando e colocando bagagens nos carrinhos. É chato, mas é preciso trabalhar para viver. Nós também o faríamos, senão tivéssemos outra escolha.

Imagine que, certo dia, o diretor do aeroporto aparece e lhe faz uma oferta: “Vou triplicar seu salário, porém há uma condição: de agora em diante toda vez que retirar uma bagagem do carrinho, deve, em seguida, colocar de novo, e aí retirar novamente e fazer o mesmo processo continuamente,,,”

É o mesmo esforço físico, mas quem faria um trabalho assim?

Porque não? Pois o ser humano está à procura de significado. Trabalhar no setor de bagagens do aeroporto pode ser chato, mas, pelo menos, há  satisfação em cumprir sua função e ajudar as pessoas. Se tirássemos este propósito, o ser humano não agüentaria viver!

Ansiamos pelo que é real e significativo. Ansiamos por estar perto de D´us, nossa realidade final.

Porém, às vezes, perdemos o foco do que realmente procuramos. Nos distraímos com outras coisas. Quantas vezes um livro ou um filme nos inspira, nos faz refletir, como no exemplo: “quero ser boa e viver todas as experiências  da vida”. Muitas vezes seguimos nossas resoluções, mas, na maioria das vezes, esquecemos.

No judaísmo, isto recebe o nome de “erros”. A palavra “pecado” em hebraico é “chet”, que significa, literalmente, “erros”. Nosso maior erro é o fato de querermos estar perto de D´us e esquecermos.


Desistir?

Sabemos como é difícil quando somos desafiados. Muitas vezes, é difícil fazer o esforço. Pensamos: “Como faremos isto? É uma luta”. Então, o que acontece?

Achamos que, no final, D´us está longe de nós. Que Este é severo e rigoroso, que quer muito da gente e que não nos ama realmente. Em seguida, negligenciamos Sua existência. Constrói-se uma atmosfera de cinismo, que não faz sentido, para que nos preocupar e aborrecer por isso?  Considere as palavras do Rei Salomão:

“Eu estava dormindo, mas o meu coração vigiava; eis a voz do meu amado que estava batendo: abre-Me, irmã Minha, amiga Minha, pomba Minha, perfeita Minha, porque a Minha cabeça está cheia de orvalho, os Meus cachos das gotas da noite”. Já despi a minha camisa; como tornarei a vesti-la? Já lavei os meus pés, como os tornarei a sujar? O meu amado estendeu  a Sua mão pelo buraco da porta e as minhas entrenhas estremeceram por amor a Ele. Eu me levantei para abrir ao meu Amado e as minhas mãos destilavam mirra, e os meus dedos gotejavam mirra sobreas aldrabas da fechadura. Eu abri ao meu Amado, mas o meu Amado já se tinha retirado, e tinha ido; a minha alma se derreteu quando Ele falou; busquei-O e não O achei, chamei-O e não me respondeu. Acharam-me os guardar que rondavam pela cidade; espancaram-me, feriram-me, tiraram-me o meu véu, os guardas dos muros”.



Ultrapassando fronteiras

Há uma história real de um moço, que esperava um quarto no hospital enquanto sua mãe fazia uma pequena cirurgia. Como era religioso, estava fazendo Salmos, as palavras sagradas do Rei David que conforta e inspira as pessoas durante as dificuldades.

Na mesma sala de espera, um homem idoso estava sentado. Ele observou que o rapaz fazia Salmos, veio ao seu lado e disse: “Por que está fazendo Salmos? Essas coisas já estão fora de moda e não vão ajudar em nada”.

E o moço perguntou: “E você, porque está aqui?” E o senhor respondeu: “Vim buscar o corpo de meu filho. Ele está fazendo uma operação, mas os médicos dizem que não há chances de sobreviver”.

Alguns minutos mais tarde, os médicos vêm e falam ao senhor: “é um milagre, a operação foi um sucesso e seu filho vai sobreviver”.

O senhor ficou de pé e disse em voz alta “Ouve, ó Israel, o Eterno é nosso D´us, o Eterno é Um”.

Qual o significado desta história? Que tipo de homem ataca o próximo por estar fazendo Salmos por sua mãe? Uma pessoa que também gostaria da fazê-lo, porém, não consegue. Na hora em que seu filho está morrendo, quer estar próximo de D´us, mas passou muitos anos negando Sua existência, vivendo a vida partindo do principio de que D´us não estava lá...

Porém, D´us não está longe de nós. Assim como ansiamos estar próximos dele, Ele, por sua vez, nos procura para estarmos perto Dele.



Suave, porém uma voz

Como nos conectamos ao Todo-Poderoso nos dias de hoje? Se, no fundo, todos queremos estar perto Dele, como conseguimos este sentimento?

A bíblia nos conta sobre o profeta Elijah. O povo judeu estava sendo influenciado a adorar o ídolo Baal, então Elijah fez um teste, uma prova de fogo. Juntou todo o povo no Monte Carmel (norte de Israel), e colocou dois altares. Num deles, pôs os sacerdotes de Baal e no outro não colocou ninguém. Depois, disse que o altar que fosse consumido provaria quem era o D´us verdadeiro.

Então, um fogo veio do céu queimou o altar de Elijah. Todas as pessoas gritaram: "O Eterno é D´us!" (Dizemos esta frase sete vezes no final de Iom Kipur). Em seguida, as pessoas, bravas por terem sido enganadas, foram até os sacedotes de Baal e o mataram.

Foi um grande milagre, mas não deu certo. Pois a rainha Jezebel, que era má, mandou mensageiros para matarem Elijah. Enquanto se escondia, D´us apareceu  para ele.

O que D´us estava tentando ensinar Elijah com o vento, o terremoto, o fogo e a voz tranqüila? É o fato de que D´us fala com a gente com esta voz suave e com amor. O prazer que temos quando estamos com a pessoa que amamos, quando fazemos alguma coisa significativa, testemunhamos a beleza do pôr-do-sol ou descobrimos o lado profundo da Torá, é a prova de que D´us está sempre conosco.

O mundo inteiro é a mensagem do amor de D´us para nós. Iom Kipur é o tempo em que estamos mais abertos para receber esta mensagem.