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O Chamado de Seinfeld

por: Rabino Yaakov Salomon

Quanto tempo, antes de enlouquecer, você consegue passar sozinho sem televisão, telefone ou laptop?

 

Passava das 21:00 horas no Brooklyn (Nova Iorque), sete graus Celsius negativos.

Minhas mãos estavam ocupadas com nove sacolas plásticas de uma loja, portanto abrir a porta da frente foi um pouco complicado. Passando minhas compras habilmente de uma mão para outra (sem quebrar os ovos e a garrafa de vidro), tirei minhas luvas com os dentes e comecei a apertar os botões da combinação da fechadura para abrir a porta.

Quando estava quase conseguindo, meu celular tocou. Penn e Teller não saberiam atender, portanto, atendi.

“Yaacov?”,  uma voz falou.

“Sim”, respondi.

“Yaakov Salomon, como vai?”

“Muito bem, e com você?”, perguntei.

(“Muito bem”, foi um exagero naquele exato segundo, especialmente depois de ter escutado um dos ovos se quebrar na caixa).
“Super bem também. É bom saber”, a voz respondeu. “Não estou interrompendo nada importante, estou?”.

“Não, imagina”, lhe assegurei.

A troca de conversa estava começando a ficar estranha, principalmente por não ter reconhecido a voz, e já estávamos num momento da conversa em que simplesmente não ficaria bem perguntar quem estava falando.

“Então”, ele continuou, “o que tem feito ultimamente?”

Estava ficando irritado. Não somente porque não conhecia meu interlocutor, mas também, pois depois de 20 segundos de conversa não fazia idéia do que ele queria de mim! Era algum pedido? Um convite? Alguma informação? Alguma investigação? Meus pensamentos gritavam silenciosamente, “O QUE VOCÊ QUER DE MIM?”.

Demorei no mínimo mais dois minutos de conversa inútil para perceber que esta ligação não tinha motivo nenhum, era um chamado de Seinfeld. Assim como o seriado Seinfeld não fala sobre nada, o telefonema que recebi era a mesma coisa. “Era um amigo antigo que não via há muito tempo. Estava me ligando só para “ficar em contato”. Não havia declarações ou justificativas, era somente para conversar.

Mas, para mim foi fascinante. Estava velho o suficiente para me lembrar de que as pessoas faziam esses tipos de “chamada de Seinfeld”. Amigos vêm nos visitar, SEM MOTIVOS ESPECÍFICOS! Eles simplesmente “aparecem para passar o tempo”.

Percebi lendo este artigo que, quando passamos dos 37 anos, suspeitamos que Salomon ou estava deitado e resolveu ligar para passar o tempo ou estava triste e queria falar com alguém. “Porque alguém perderia seu precioso tempo ligando ou visitando alguém sem motivo aparente ou, sequer, sem remuneração?”.

Sim, verdadeiramente, pessoas ligam e batem nas portas para conversar, ajudar, estar em contato com o próximo.Mas, este ato se tornou algo triste, um tempo perdido, levando-se em conta o advento de inúmeras maneiras de aproveitar o tempo e a pressão de fazer cada segundo contar. A falta de um motivo aparente e os encontros sem objetivo específico parecem não existir mais, estão ultrapassados, como as fitas de vídeo cassete. Não, não está na moda e não é aceitável perder um segundo sequer.

Na verdade, não é um tempo perdido. Foi utilizado para fazer uma conexão entre duas pessoas de forma natural e espontânea. Eu perdi esses dias. A vida era mais tranqüila, com menos pressão, menos corrida e talvez até mais significativa.

Quando menciono uma vida mais significativa, quero dizer, porque além da obsessão de produzirmos o máximo que pudermos, perdemos características como a paciência, a troca de olhares, o ato de escutar o próximo, a interação com outras pessoas e o fato de pensarmos em nossas atitudes também. Pagamos um preço muito caro por isso.

Quando foi a última vez que você teve a atenção total de uma pessoa? Estatísticas mostram hoje, que se você está no telefone falando com alguém, somente 12% das pessoas do outro lado da linha não estão fazendo nada enquanto falam com você. Ok, eu inventei um número, mas se alguém fizesse um estudo desse tipo, aposto que o número seria bem menor que esse!

Admita, muitos de nós, enquanto fala no telefone está navegando na internet, dirigindo, cozinhando, checando e-mails, assistindo televisão (mesmo estando com o volume baixo), mandando e-mails ou mensagens instantâneas, fazendo uma lista do que ainda precisa fazer, jogando cartas ou Playstation, colocando máscara no rosto, colocando no microondas uma quiche para esquentar, olhando as correspondências enviadas, ou até tirando uma soneca (é difícil, mas não impossível).

Com certeza, é maravilhoso ser produtivo. Ninguém quer desistir de seus compromissos. Queremos sempre tirar o maior proveito de nosso tempo. O problema é que isto se tornou um vício. Simplesmente não toleramos momentos em que fazer muitas coisas ao mesmo tempo seja impossível, inviável ou inconveniente. Tente sair de casa sem o celular ou laptop ou, pior ainda, tente ir a algum lugar sozinho, sem telefones, computadores e televisão. Com certeza iria ficar louco.

Um amigo meu recentemente foi a um casamento em que não conhecia quase ninguém. Graças a D´us viu um conhecido, que estava sentado ao seu lado. Ele lhe disse que precisava embora mais cedo. E o pior, meu amigo tinha esquecido o celular em casa! O homem foi embora e deixou meu amigo sozinho. No dia seguinte, ele descreveu a situação desta forma: “me deixaram sozinho com meus pensamentos. Foi muito, muito desconfortável”.

O que acontece é que substituímos a contemplação, o ato de refletir, com a implementação, a execução de tarefas. Nós não pensamos, simplesmente fazemos, fazemos e fazemos mais. Ficamos tão ocupados com tudo o que precisa ser feito e do quão eficiente podemos ser, que não sobra tempo para pensar ou refletir no porque fazemos as coisas ou se estas são significativas ou importantes ou se servem para algum propósito neste mundo. Precisamos de um tempo na nossa agenda só para pensar e refletir. É assustador!

Mas, do que realmente temos medo? Porque o fato de termos um tempo só para pensar nos assusta tanto?

Há muitas possibilidades, muitos de nós temem que pensar nos força a perceber  como temos medo de falhar, de nos sentirmos desapontados, de sentir dor, de mudar, de perder pessoas amadas, da doença, de perdermos a cabeça, nossa própria moralidade e até do apocalipse. Temos medo de enfrentar nossos temores. E a única forma de estarmos seguros é mantermos nossa mente ocupada o tempo todo.

Outra razão pela qual pensar é perigoso é porque talvez nos encontremos nos confrontando com perguntas sobre o significado da vida e questões que nos afligem, como:

Será que estou cumprindo meu objetivo no mundo?
Será que minhas decisões refletem os meus valores na vida?
Quais são meus valores?
Será que sei quais são minhas prioridades?
Será que me preocupo com isso?

Muitas pessoas vivem numa bolha de negação, talvez por ser mais seguro e confortável. E todas as funções que temos faz com que nos separemos desta bolha e nos previne de enfrentar as duras questões que a vida coloca em nosso caminho.

Mas, a mudança só ocorre gradualmente. De vez em quando, não necessariamente todos os dias, talvez toda semana ou uma vez por mês devemos nos sentar sozinhos, sem distrações, e pensar em quem somos e o que queremos realizar.  O tempo para isso, provavelmente, não dura mais do que cinco minutos. É assim mesmo, acredite em mim, cinco minutos pode ser muito tempo.

Porém, cinco minutos por semana sem um telefone celular, um laptop, um mouse ou até uma caneta, certamente mudará sua vida.

E está é a parte inspiradora do Shabat. É uma grande oportunidade para reflexão, um tempo apropriado para pensar e analisar nossos atos, pois não há telefone celular, computadores e TV. Com o mundo lá fora num status afastado, podemos refletir e meditar livremente, sem distrações que envenenam nossa capacidade de reflexão.E se as vinte e cinco horas parecem assustadoras, talvez sexta-feira à noite possa ser um dia para começar.

Não tenha medo.

Pare de fazer.

Comece a pensar.