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Negando o Holocausto

Gittel Abrams

Quando criança era obcecada pelo Holocausto e jurei que transmitiria a história. Então, me tornei mãe e tudo mudou.

Quando criança era obcecada pelo Holocausto. Devorava todos os livros disponíveis sobre o assunto, que eram poucos, comparado com a vasta literatura que existe hoje em dia e discutia infinitamente com meus colegas na Beit Yaakov de Boro Park. Para nós, o assunto principal, aquele que atormentava e repelia com seu mistério não eram os meninos, e sim " de hurban", a destruição.

Antes do bater o sinal, no almoço e depois da escola, ponderávamos sobre as mesmas palavras: Como isto pôde acontecer? Como nossos pais sobreviveram a isto? E, mais importante: Porque o mundo não se manifestou? As respostas fugiam, mas continuávamos a nos atormentar, como se fosse uma expiação pela nossa existência. Fomos marcados, assim como nossos pais, pelos números tatuados em seus antebraços.

"Nunca mais!". Juramos e realmente, anos depois, alguns de nós se juntaram a Liga de Defesa Judaica (Jewish Defense League). Outros se encarregaram de serem as testemunhas: dedicarei minha vida a recontar os horrores; este testemunho servirá como proteção; protegerei meu Povo com esta história. Outros juraram: “derrotarei Hitler abraçando a D’us e ao Judaísmo e fazendo da minha vida um testamento para aqueles que pereceram."

Eu não fiz um, mas todos aqueles três votos. Talvez estivesse mais traumatizada do que as outras crianças da minha idade, não pelas minhas perdas (duas avós, dois tios e centenas incontáveis de parentes, o que não era incomum entre as famílias que soube), mas pelos gritos na noite.

Toda noite, por anos, meu pai gritava durante o sono, abafando gemidos inumanos. De dia, nunca falava sobre o Holocausto. Mas, seus gemidos me despertavam e então corria para perto de seu quarto, disposta a ouvir e absorver cada gemido de dor. Era a minha missão, pensei, deixá-los me dominar, tatuar minha psique.

Tornei-me uma ativista. Aos 16, juntei-me a Luta dos Estudantes pelo Gueto Soviético (Student Struggle for Soviet Jewry) ("Deixe Meu Povo ir!") e aos 19, à Liga de Defesa Judaica (Jewish Defense League). Fui presa por me instalar em frente a missão soviética para as Nações Unidas e estava orgulhosa por ter esse registro. Para o meu povo, me sacrifico.

Mas, mais do que qualquer outra coisa jurei que transmitiria a história. Escrevi ensaios, poemas, canções, jogos, com um só tema. Como professora de segundo grau num dia de escola da yeshivá, pedi ao diretor se poderia substituir Elie Wiesel por Charles Dickens. Mais tarde, dei um curso em literatura do Holocausto na faculdade de Baruch para índios do Oeste, hispânicos,e americanos chineses e africanos. Muitos me disseram, no fim que eu mudei sua perspectiva em relação aos judeus.

E esperei esperançosamente para o maior desafio de todos: fazer com que meus filhos tenham consciência do Holocausto.Não seria da mesma forma como meu pai, sem gemidos na noite para marcar seus espíritos. Começaria a educá-los numa idade bem jovem, leria livros sobre o assunto, conversaria abertamente e os levaria para conhecer os centros de Holocausto que abriram recentemente.Seria a professora perfeita.

E então os filhos chegaram e tudo mudou ao meu redor.

O primeiro nasceu irritável, sensível e nervoso. Era um desafio acalmar seus medos, e os cuidados com a educação de meu filho foram muito mais formidáveis do que pressentira. Como, me perguntei, poderia impor o fardo do Holocausto nesta criança? Ele já lutava contra tantos medos interiores que simplesmente não podia colocar mais um terror em sua lista. Estava trabalhando com a ajuda de muitos médicos, ajudando-o a ficar mais tranqüilo, dizendo que o mundo era um lugar seguro. Então como direi a ele o que aconteceu com sua família? E por isso, nunca lhe contei a história e a herança, algo que tinha jurado fazer ferozmente.

No nascimento, o mais novo parecia diferente. Uma constituição mais forte, e por isso, respirei com alívio no quarto em que o tive. Mais forte, alegre e otimista, algo que se tornou evidente desde o início. Então, talvez possa lhe dizer, assim que crescer como uma criança forte e feliz. Mas quando olhei de uma criança a outra, parei.

O mais velho tem uma perspectiva tão pessimista. E o mais jovem, muito abençoado com sua personalidade forte... Devo escurecer seu universo? E se a educação de Holocausto que eu der diminuir seu espírito forte e vibrante? Eu aprecio seu entusiasmo,sua fé nas pessoas, sua convicção de que o mundo é realmente um lugar seguro. Como posso lhe dizer que não é? Especialmente para os judeus?

E então, por ironia, nunca disse a nenhum dos dois. Eu, a leitora voraz do Holocausto, a apaixonada professora de Holocausto, a escritora obcecada pelo Holocausto, nunca falei uma única palavra sobre o Holocausto com meus filhos. Fiquei muda, tão muda quanto as lentes de meus óculos, as pilhas de sapatos, os montões de malas vazias que ainda estão em censura em Auschwitz hoje.Estava mais muda do que as testemunhas, os espectadores críticos. Os mártires, as vítimas e os heróis do Holocausto em minha casa eram desconhecidos e nunca foram citados.

Será que estava certa ou errada? No Dia de Recordação do Holocausto, me lembro violentamente do juramento que fiz de nunca me esquecer, o juramento que não pude manter. Penso, com angústia, nos 6 milhões de esqueletos, e então, calmamente os coloco, um por um, atrás do armário.

Denying the Holocaust é do livro “The Mother in Our Lives” (Targum/Feldheim) uma nova antologia de mulheres judias escrito e editado por Sarah Shapiro.