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No início

Lawrence Kelemen

Quais são as implicações teológicas de cosmologia moderna?

Até o começo do século XX, astrônomos ofereceram três modelos possíveis de universo:

A) O universo era estático. Poderia ser um infinito de estrelas e planetas espalhados que não demonstravam nenhum movimento uniforme. De acordo com esta teoria, as atrações gravitacionais mútuas de estrelas e planetas poderiam segurar estes objetos astronômicos juntos na forma de sistemas solares e galáxias. Mas, cada um destes grupos estrelares e terrestres deslizariam ao acaso pelo espaço de acordo com sua própria trajetória, sem conexão com os percursos realizados por outros grupos de estrelas e planetas. A beleza do modelo estático é que este serve tanto para ateus quanto para crentes: o universo pode ter sido criado por D’us num certo ponto da história, mas também pode ter existido para sempre sem D’us.

(B) O universo era oscilante. Poderia ser como um balão cósmico que apresenta ciclos sucessivos de expansão e contração. Por alguns bilhões de anos inflaria tornando-se um nada absoluto. Porém, a atração gravitacional de cada estrela e planeta entre si diminuiria esta expansão até que o processo inteiro se inverteria e o balão viria a colidir em volta de si mesmo. Tudo o que existia iria se concentrar no centro de universo, lançando quantias enormes de calor e luz em todas as direções recomeçando a expansão tudo de novo. Tal universo pode tanto ter sido criado por D’us ou ter existido para sempre sem D’us.

(Ou, finalmente, o universo poderia ser aberto. Poderia ser como um balão cósmico que nunca implode. Se a atração gravitacional total de todas as estrelas e planetas não conseguissem deter a expansão inicial, o mundo seria um nada para sempre. Conseqüentemente as estrelas se extinguiriam e uma cortina de escuridão gelada iria envolver toda a existência. Tal universo nunca voltaria a vida. Existiria em algum momento da história, resplandeceria gloriosamente, e então acabaria numa noite irrevogável. Essencialmente, este modelo propõe que antes da explosão original, toda matéria e energia do universo estava contida numa singularidade, ou seja, um ponto minúsculo que se permaneceu estável por uma eternidade antes de detonar. Este modelo propõe um paradoxo: Objetos em repouso - como a singularidade inicial – permaneceriam assim a menos que sofressem interferência de uma força externa e ainda que o ponto inicial contivesse toda matéria e energia, nada (pelo menos, nada natural) existiria fora desta singularidade que causaria uma explosão. A resolução mais simples do paradoxo é que uma força sobrenatural fez com que o universo existisse. O modelo aberto do universo implica, desta forma, num Criador sobrenatural.

Em 1916 Albert Einstein divulgou os primeiros esboços de sua Teoria da Relatividade Geral e o mundo científico ficou furioso. Parecia que Einstein revelava os segredos mais profundos do universo. Suas equações também causaram alguns problemas como dilemas técnicos, empecilhos matemáticos, porém nada que interessasse jornais e revistas científicas populares.

Dois cientistas notaram os impasses. No fim de 1917 o astrônomo dinamarquês Willem de Sitter revisou a Teoria da Relatividade e mandou uma resposta detalhada para Einstein, esboçando o problema e propondo uma solução radical: a relatividade geral funcionaria se o universo inteiro estivesse explodindo, estourando em todas as direções a partir de um ponto central. Einstein nunca respondeu às críticas de Sitter. Então, em 1922, o matemático soviético Alexander Friedmann derivou de forma independente a solução encontrada por de Sitter. Se Einstein estivesse certo, segundo Friedmann predisse, o universo deveria estar se expandindo em todas as direções em alta velocidade.

Enquanto isso, atravessando o oceano, o astrônomo americano Vesto Slipher testemunhou o movimento expansivo do universo. Usando o poderoso telescópio do Observatório de Lowell em Flagstaff, Arizona, Slipher descobriu que dezenas de galáxias estavam realmente se deslocando de um ponto central.

No fim da Primeira Guerra Mundial, de Sitter, Friedman e Slipher compartilharam independentemente suas descobertas com Einstein, mas este, estranhamente resistiu à suas soluções, como se, em seu brilhantismo, percebesse as implicações teológicas do universo que se expandia. Einstein ainda escreveu uma carta para Zeitschrift Physik, um prestigioso jornal técnico, classificando as sugestões de Friedmann de "suspeitas;" e para de Sitter Einstein escreveu rapidamente uma nota, "Esta circunstância [de um universo em expansão] me irritou." Em outra nota, assegurou a um de seus colegas, "eu ainda não caí nas mãos de padres" -- uma referência oculta a de Sitter, Friedmann e Slipher.

Em 1925, o astrônomo Americano Edwin Hubble, deu um golpe fatal no modelo estático de universo. Usando o que era então o maior telescópio no mundo, Hubble revelou que toda galáxia dentro 6 x 1017 milhas da Terra estava retrocedendo. Einstein recusou firmemente reconhecer o trabalho do Hubble. O gênio alemão continuou ensinando o modelo estático por mais cinco anos, até que, a pedido de Hubble, viajou de Berlim até Pasadena pessoalmente para examinar as evidências. Na volta da viagem, Einstein relutantemente admitiu, "Novas observações por Hubble... fazem com que a estrutura geral do universo não seja estática." Einstein morreu em 1955, desconfiado, mas quieto não completamente seguro de que o universo estava se expandindo.

Dez anos mais tarde, em 1965, Arno Penzias e Robert Wilson estavam calibrando um detector de microondas supersensível no Laboratório Bell Telephone em Nova Jersey. Não importava onde os dois cientistas apontavam o instrumento, ele pegava o mesmo ruído de fundo não identificado, constante, de três graus ("3K") Kelvin. Como num pressentimento, os dois empregados dos Laboratórios de Bell Telephone examinaram uma composição sobre a Relatividade Geral de um aluno de Alexander Friedmann. A composição predizia que os restos da maioria da explosão recente do universo poderiam ser detectados em forma de uma fraca radiação de microondas, “por volta de 5k aproximadamente”. Os dois cientistas perceberam que tinham descoberto o eco da maior explosão da história: "o Big Bang." Por esta descoberta, Penzias e Wilson receberam o Prêmio Nobel.

A descoberta da "ruído de 3K" debilitou o modelo estático de universo. Restavam somente dois modelos: um que funcionava sem D’us e outro que não. A questão a ser respondida era: o universo primordial explodiu infinitas vezes (o modelo oscilatório)? Ou somente uma vez (o modelo aberto)? Pesquisadores sabiam que isto podia ser resolvido determinando a densidade média do universo. Se o universo contivesse o equivalente de cerca de um átomo de Hidrogênio por dez pés cúbicos do espaço, a atração gravitacional entre todas as partículas de universo seria forte o bastante para parar e inverter a expansão. Eventualmente existiria um "Big Crunch" que levaria a outro Big Bang (e então outro Big Crunch, etc.). Se, pelo contrário, o universo contivesse menos do que esta densidade, então a força da explosão do Big Bang superaria todas as atrações gravitacionais, e tudo expandiria em nada absoluto para sempre.

Curiosamente, a morte do modelo estático fez com que o mundo científico entrasse em pânico. Matemáticos, físicos, e astrônomos juntaram forças para provar a eternidade do universo. O Dr. Robert Jastrow, discutivelmente o maior astrofísico dos últimos tempos e diretor do Instituto Nacional de Administração Aeronáutica e Espacial de Goddard Center for Space Studies foi nomeado diretor do projeto de pesquisa. Por quinze anos, Jastrow e sua equipe tentaram demonstrar a validade do modelo oscilante, mas os dados indicaram outra coisa. Em 1978 Jastrow exibiu um relatório definitivo da NASA, chocando o público com seu anúncio de que o modelo aberto estava, provavelmente correto. Em 25 de junho daquele ano, Jastrow divulgou suas descobertas na Revista New York Times:

Este é um progresso extraordinariamente estranho, inesperado por todos com exceção dos teólogos. Pois estes sempre aceitaram a palavra da Bíblia: No princípio, D’us criou o céu e a Terra... [Mas] para o cientista que vive pela sua fé no poder da razão, a história termina como um pesadelo. Ele escalou as montanhas da ignorância; estava para conquistar o cume mais alto; [e] ao chegar na última pedra, é saudado por um bando de teólogos que já estavam lá há séculos."

O Dr. James Trefil, físico da Universidade de Virgínia, confirmou as descobertas de Jastrow em 1983. E os Drs. John Barrow, astrônomo da Universidade de Sussex e Frank Tipler, (matemático e físico da Universidade de Tulane) publicaram resultados semelhantes em 1986. No encontro da American Astronomical Society (Sociedade Astronômica Americana), o Professor John Mather da Universidade de Columbia, um astrofísico que também fazia parte da equipe do Goddard Centrer da NASA, apresentou "o apoio mais dramático" para o universo aberto. De acordo com um repórter do Boston Globe que cobria a conferência, a apresentação de Mather foi acolhida com muitos aplausos, o que levou o diretor do encontro, Dr. Geoffrey Burbridge, a comentar: "Parece óbvio que o público está a favor do livro de Gênese - pelo menos o primeiro verso parece estar confirmado." Em 1998, os Drs. Ruth Daly, Erick Guerra e Lin Wan, da Universidade de Princeton anunciaram a Sociedade Astronômica Americana (American Astronomical Society), “Podemos afirmar com 97.5 por cento de confiança que o universo continuará a se expandir para sempre." Mais tarde naquele ano, o Dr. Allan Sandage, um astrofísico renomado mundialmente que fazia parte do Carnegie Institute de Washington, foi citado no The New Republic dizendo: "O Big- Bang é melhor compreendido como um milagre causado por algum tipo de poder transcendente." o colunista da Newsweek George Will Começou sua coluna do dia 9 de novembro de 1998 com esta sátira: "Logo a American Civil Liberties Union (União dos direitos civis americana) e a People for The American Way (Pessoas favoráveis ao estilo americano), ou alguma facção semelhante de secularismo litigioso processará contra a nasa, com a acusação de que o Telescópio Espacial Hubble apóia unconstitucionamente os mais religiosos." No mesmo ano, a Newsweek divulgou uma recente e inesperada mudança de opinião entre os mais agnósticos: "Quarenta por cento dos cientistas americanos agora acreditam num D’us pessoal – não somente num poder e presença indescritível no mundo,mas também numa divindade, a quem possam rezar.”

É claro que ainda existem matemáticos, físicos, astrônomos, e cosmólogos que não acreditam em D’us hoje em dia. Por várias razões, ao invés disso escolheram acreditar que novas leis naturais serão descobertas ou que haverá uma nova evidência que destruirá o modelo atual de universo aberto, criado. Mas, para muitos na comunidade científica a evidência é persuasiva. A moderna cosmologia oferece permissão para crer.

Este artigo apresenta uma versão extremamente abreviada do argumento cosmológico. Para uma apresentação mais detalhada veja o ensaio do autor em Permission to believe (Jerusalém: Targum/Feldheim, 1990).