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A história das duas Meguilot

por Rabino Ary Kahn

Num apartamento em Jerusalém, havia dois pergaminhos de Ester que contavam uma história de exílio e fuga, esperança e derrota.

Até onde me lembro, meus pais tinham duas Meguilot Ester em sua casa. Nenhuma delas era nova, e sim uma mais velha que a outra. Claro que a mais nova era mais fácil de usar e ler; era bonita, com letras claras e grandes. Era a que usávamos para seguir a leitura da Meguilá no Shul (sinagoga). A outra era mais antiga, com as letras um pouco borradas. A velha Meguilá não obedecia sempre ao leitor e se enrolava o tempo todo quando queria. Mas fora as palavras escritas dentro dela, esta Meguilá tinha outra história fascinante para contar: era a Meguilá de meu bisavô: o pai do pai de meu pai.

Meu avô deixou a Europa durante a Primeira Guerra Mundial. Passou algum tempo na Alemanha e finalmente seguiu caminho para os Estados Unidos onde se casou, em 1923. Ele se casou com a filha de um grande Rabino, o antigo Rabino de Riminov, que emigrou para o leste de Manhattan. Meus avós tiveram somente um filho, meu pai, a quem deram o nome de seu avô paterno, Pinchas. Meu avô tinha dois irmãos e uma irmã que vivia nos Estados Unidos, mas, de todos os netos, meu pai era o único judeu religioso.

Depois da Segunda Guerra Mundial, meu avô viajou para Israel pela primeira vez. Lá, se encontrou com sua outra irmã; que tinha perdido contato antes da guerra e não sabia que ela tinha sobrevivido. Realmente, sua rota para Israel tinha sido tortuosa, levando-a da Galicia pela Sibéria e finalmente para a Terra Santa.

Quando meu pai viajou para Israel pela primeira vez, em 1968, esta tia decidiu dar a ele a velha Meguilá. Talvez tenha confiado-a a ele por ter o nome de seu pai, ou talvez porque era um Rabino. De qualquer modo, esta era a única coisa que nos conectava com o avô do meu pai, fora, é claro, nosso sobrenome e o nome dado a meu pai.

A Meguilá viajou para a Galicia pela Sibéria com a tia de meu pai, antes de seguir caminho para Israel. Esta Meguilá conta a história da viagem dos judeus, preservando sua identidade, procurando por um abrigo seguro, sendo levada para a santidade como se fosse atraída por um imã. Esta Meguilá é nosso vínculo com o passado e representa nosso compromisso com o futuro.

Mas, como mencionei, há uma segunda Meguilá, uma Meguilá mais nova, uma que provavelmente nunca viu a Galicia ou a Sibéria. Era de um senhor de idade que rezava na sinagoga do Brooklyn, onde meu pai serviu como Rabino por quase 40 anos. O dono desta Meguilá envelheceu e decidiu dar a sua Meguilá a seu Rabino como um presente de partida, antes de falecer. Ele viu que não havia ninguém em sua família que freqüentava a sinagoga: seu filho era desinteressado assim como seus netos. Ele tinha medo de que, depois de seu falecimento, a Meguilá fosse descartada como outro artefato “sem valor”. Seu gesto, embora compreensível, é notavelmente triste. Será que algum dia seus netos verão a Meguilá de seu avó? Será que se preocupariam?

Tenho um dilema relativo à Meguilá que usarei este ano: Será que deveria pegar emprestada a Meguilá que pertencia ao meu bisavó e mostrar aos meus filhos algo que pertenceu ao seu tataravô, ao Zeide de seu Zeide? Será que devemos cumprir a mistvá de ouvir a Meguilá com este tesouro de família? Talvez eu deva usar a outra Meguilá; talvez deva contar a meus filhos a história deste homem, que não conseguiu atrair seus filhos ao feriado de Purim e nem a todos os outros feriados judaicos?

Talvez estas não sejam duas histórias diferentes e novas. A história judaica está repleta de judeus que viajaram de um lugar a outro, sempre com um olho em direção a Jerusalém, sempre atento ao seu destino. Eles transmitiram sua história a seus filhos com paixão, e os inseriram numa comunidade de pessoas que tem fé, que acreditam na religião. Por outro lado, existem judeus que escolheram abdicar, e falharam em transmitir a seus filhos os sentimentos e convicções que permeiam nossa existência coletiva. Talvez estas pessoas se sintam desconfortáveis sendo "diferentes”, e, por isso, tentaram se ajustar numa comunidade maior. Sua tentativa de aculturação teve um preço; sua identidade judaica foi sacrificada e perdida no processo.

O início da Meguilá fala de judeus que participaram da festa do Rei da Pérsia, muitos anos atrás. Eles desejavam desesperadamente se encaixar; não queriam ser diferentes de seus vizinhos. Certamente estavam assustados com o dever da “dupla lealdade". Assim como hoje em dia, existem judeus que falharam em ensinar seus filhos, que escolheram permanecerem indiferentes à "aquela antiga religião". No final do livro, todos os judeus perceberam que eram uma só pessoa, compartilhando uma história em comum e um destino em comum. A tragédia foi evitada, os judeus foram salvos, e o retorno a Terra de Israel podia começar. Os judeus se lembraram de seu destino. Hoje, permanecemos muitos anos mais tarde, depois de tantos desvios na rota em direção a nosso destino. Quando vemos pessoas entre nós que não estão dispostas ou são incapazes de transmitir a eterna mensagem do Judaísmo para a próxima geração, não podemos ajudar, mas nos perguntamos quem ainda estará a bordo quando alcançarmos o destino?

Depois de muito pensar finalmente cheguei a terceira opção: comprei minha própria Meguilá. Percebi que nossa família também deveria ter uma Meguilá em nossa casa. Me sentarei com meus filhos na hora de leitura. Lembrarei-os dos rolos dos antigos pergaminhos que viram no apartamento de meus pais, e das histórias que representam: histórias de continuidade, fé e destino, história de exílio e desesperança. O exílio é a essência da história de Purim, mas rezo para que nossa família retorne a Israel permanentemente, concluindo, finalmente o exílio e a perambulação, a alienação e o desespero que começaram na Pérsia e foram registrados na Meguilá. Espero que meus filhos gostem de nossa nova Meguilá, e que aprendam sua história, interiorizem as mensagens da história de Purim e das várias Meguilot de nossa família, e se identifiquem com os valores que elas têm.

Purim Sameach!