Bem Vindo ao Aish Brasil
 
   Mundo Judaico
   Sociedade Hoje
   Espiritualidade
 Em suas mãos .
 Acalmando-se.
 Uma lição árdua...
  Julgando aos outros..
  Conflito de um...
  Crescendo pobre
  Quatro concepções...
 Você sabe pra onde...
 A festa de casamento
 Principios Judaicos
 Sorria - trabalhe ....
 Como livrar a mente
 Cabala
 Bruxaria e judaísmo
 Conversão ao judaísmo
   Família
   Relacionamento
   Literatura Judaica
   Holocausto
   Meor Ha Shabat
   Festas Judaicas
   Programação
   Cursos
   Quem Somos
   Fotos
   Videos
   Cadastre-se
   Pergunte ao
Rabino
   Kotel ao vivo
   Celebridade

 

Crescendo pobre

Ross Hirschmann

Quando os Bar Mitzvahs se tornam tão extravagantes quanto os casamentos, está na hora de uma séria reavaliação.

Eu cresci pobre. Não desgraçadamente pobre. Mas, minha família estava longe de ser rica e havia muitas coisas além das essenciais que simplesmente vivíamos sem ter.

A única coisa estranha sobre aquela situação é que nunca soube que tinha crescido pobre até que vim viver em Los Angeles, já um homem crescido. Assim que cheguei e me estabeleci, meus vizinhos viviam gritando: “Ross, você nasceu pobre, admita!”. Não estava surpreso. Los Angeles pode ser um lugar confuso.

Minha cidade natal, Walnut Creek, é agora um subúrbio afluente com 64,000 pessoas ricas e muitas livrarias. Quando me mudei para lá com meus pais, em 1963, era uma cidade quieta e pequena, com 15,000 habitantes. Era um lugar com casas baratas, onde jovens casais conseguiam comprar sua primeira casa. E foi o que meus pais fizeram; eles compraram sua primeira casa: 3 quartos e 2 banheiros, pela soma ultrajante de $26,950. Hoje em dia, em Los Angeles você pode se considerar sortudo se puder dar mais ou menos esta quantia como sinal para comprar uma casa.

Meu pai era o único sustentador da minha mãe e nós, cinco crianças. Ele nunca teve uma renda enorme, somente uma adequada. Raramente fazíamos compras de roupas e se fazíamos era quando havia liquidação na J.C. Penney no centro da cidade de Walnut Creek. E até naquelas liquidações, meu pai ia primeiro no que estava com os preços mais baratos para depois ir para o que chamamos afetuosamente de "Mesa de Desconto da Betty." Os passeios para comprar roupas eram tão raros que, certa vez, na quinta série, percebi através da porta de vidro da escola, que minhas calça de veludo marrom, as calças que mais amava estava quatro dedos pequena. De repente, começou a fazer sentido o que todas as outras crianças viviam me dizendo: “A inundação vem vindo!” A primeira pergunta que fiz a minha mãe quando cheguei em casa da escola foi, "Está tendo liquidação em Penney agora?”

Eu tive uma "grande" festa de aniversário. Quando estava na quarta série. Na maior parte dos outros anos, minha mãe desenhava um cartaz de “Feliz aniversário” e pendurava no corredor da casa. Os presentes de aniversário ou de Chanuká não chegavam perto dos brinquedos “da moda” que passavam na TV. Às vezes, quando a situação estava realmente difícil, minha mãe embrulharia um de meus próprios brinquedo e nos dava como um presente. Até hoje ainda imagino se minha mãe sabia que percebíamos que era o brinquedo usado que ganhávamos.

Eu ganhei somente uma bicicleta minha vida inteira, até entrar na faculdade: usada, preta, sem nenhuma velocidade especial, com uma braçadeira para por livros enferrujada atrás. Meus familiares nunca nos compraram novas bicicletas, mas quem se importa? Nos divertíamos procurando anúncios de bicicletas usadas e baratas e saindo para fazer um “test drive”.

Para o meu Bar Mitzvá, eu estava realmente "limpo." Ganhei um terno novo de Bar Mitzvá comprado na liquidação por $29.99 (um bom negócio para o ano de 1976!), e um total de $35, do qual $25 estava guardado e eu perdi. (Encontrei uns 13 anos mais tarde, quando era um aluno sedento da faculdade de direito. Valia apenas $48 desde aquele tempo até agora. Eu troquei e pensei que era o homem mais rico do mundo.) A recepção foi simplesmente num sábado normal "oneg" e na sinagoga tinha um bolo que meus pais compraram que dizia, "Mazel Tov, Ross!" Era só isso. Fim do Bar Mitzvá.

Comecei a trabalhar aos 11 anos vendendo jornal da Tribuna de Oakland aos passageiros que saiam do trem na estação de Hill BART. Era ótimo, para meu primeiro trabalho. Eu trabalhava com chuva ou sol, congelando de frio (o que acontecia freqüentemente) ou num calor sufocante, de segunda a sexta. Trabalhei durante a escola, a faculdade de direito e todos os dias desde lá.

Agora algum de vocês podem estar dizendo, "Pobre coitado! Tendo que trabalhar desde os 11 anos e tendo seus brinquedos reembrulhados” Mas eu não vejo deste modo. Vejo todas aquelas "limitações econômicas" com um grande, "E daí?!" Eu não era privado de nada. Era só uma criança normal que cresceu em Walnut Creek no ano de 1970 é que vestia "calças inundadas" Nunca fui privado de nada e nem me sentia menor que os outros. Não chore por mim, Argentina.

Então vim para Los Angeles. Terra dos mais ricos, casa dos prazeres. De repente, me achei examinando novamente as realidades econômicas de minha infância. E vi crianças tendo grandes festas de aniversário todo ano, começando no 1o ano! Cada festa da família era mais extravagante e fantástica que a próxima, como se houvesse alguma competição ou campeonato para a melhor e mais incrível festa. Entre o bando de balões que competia com os de uma convenção política nacional, enfeites em forma de Lua, o palhaço ou o mágico e o bolo com muitas coberturas decoradas de acordo com as especificações da criança, era tudo exagerado!

Esta exibição constante de crianças favorecidas com tudo o que quiserem me fez pensar que talvez Los Angeles estava certa. Talvez eu tenha crescido pobre mesmo!

Então fiquei religioso e pensei que finalmente poderia ter alguma perspectiva em relação a este assunto. E tive. Aprendi que a Torá é o aprendizado da humildade perante D’us. Que Moisés foi honrado com o título de ser "o mais humilde dos homens." Que os maiores rabinos na história, como o Chafetz Chaim, foram pobres suas vidas inteiras e mesmo assim são considerados grandes homens nos dias de hoje. Que todo ano em Sucot celebramos o ato de nos livrarmos de todo nosso lado material para nos lembrar que a fonte de tudo que temos vem de D’us.

Mas eu também descobri que até a comunidade judaica adotou noções seculares de como “celebrar" festas e aniversários para as crianças. Nós também fomos mordidos pelo “lado material”.

Fico muito surpreso ao ver meninos judeus tanto os com formação mais secular judaica quanto os mais religiosos, tendo festas extravagantes de Bar Mitzvá, que chegam a ser maiores do que a de meu casamento, e com comida melhor. Um amigo religioso me disse que o Bar Mitzvá de seu filho vai custar ao redor de $40,000; $25,000 se ele fizer um "desconto." "Esta é a expectativa de hoje," ele disse soando conformado com o destino. "Está fora de controle." Como a indulgência de nossas crianças pode ser uma coisa boa?

As coisas mudam, e nem sempre para o melhor. Da mesma maneira que Walnut Creek se foi, o J.C. Penney foi substituído por um Nordstrom, uma loja com uma imagem muito maior do que a antiga, os tipos de festas de aniversário de criança e as festas de Bar/Bat Mitzvá de minha "época" mudaram muito. E é uma vergonha. Havia uma beleza definida, simplicidade e admiração na minha infância e em tudo ao seu redor. Era mais uma infância de sonhos e imaginação do que de expectativas materiais. Não existia TV a cabo e jogos de vídeo-game, então o mundo que visitávamos e brincávamos era criado por nós mesmos em nossos quintais. Você gostava mais das coisas porque não existiam coisas melhores do que as que já existiam. Mas tínhamos o suficiente. Mais do que o suficiente.

O desafio de hoje não é providenciar o suficiente para nossos filhos e sim convencê-los de que têm o suficiente. Tenho sorte, pois meus pais viveram durante o período da Depressão e meu pai lutou na Segunda Guerra Mundial e meus familiares são sobreviventes do campo de concentração. Pelo fato de terem uma mentalidade que reflete a gratidão desde pequenos, eles nos criaram, a mim e a minha esposa com esse mesmo senso de gratidão. É claro que sabíamos que outras pessoas tinham mais do que a gente, mas, por alguma razão, isto nunca nos incomodou. Nem fez com que nossos pais tentassem viver além de suas possibilidades para que tivéssemos um palhaço ou uma lua em todos os aniversários até os 18 anos.

Perdemos a compreensão de desvalorizar as coisas materiais e, ao invés disso, elevamos e até veneramos as riquezas.

Quando uma criança de 12 ou 13 anos de idade precisa de um banquete completo no Hotel de Beverly Hills e uma banda para entrar em contato com as novas responsabilidades descobertas em relação as mitzvot de D’us, está hora de rever nossos conceitos. Alguns rabinos importantes fixaram diretrizes limitando tais extravagâncias. Mas, estamos seguindo estas diretrizes? Ou temos medo de ficar para trás em relação à moda de hoje em dia?

Nossos Sábios fazem uma pergunta profunda, "Quem é a pessoa feliz?" A resposta não é a pessoa que faz a maior festa de Bar Mitzvá, e sim a que está satisfeita com o que tem (Ética dos Pais, 4:1). Como um Povo, precisamos rever este princípio tão sábio e importante, e ensiná-lo a nossas crianças. E somos nós, os adultos que devemos fazer isso. Nós é que damos o tom para os valores das nossas crianças. É hora de voltarmos para a base. Caso contrário, tenho medo de que sejamos somente uma festa de $40,000 iluminando as Nações.