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Conflitos de um judeu budista
Sara Yocheved Rigler

A escola hebraica e a ignorância levaram embora uma geração de judeus espirituais.Um novo livro os chama de volta.

Minha amiga Henya, depois de estar anos no movimento reformista judaico, chegou à conclusão de que não estava satisfeita espiritualmente.Divorciou-se de seu marido e foi para a Índia. Lá, nos contrafortes do Himalaia, encontrou um guru. Então, se mudou para uma caverna próxima ao guru, adotou o nome "Janaki," em sânscrito e mergulhou no sadhana, práticas espirituais hinduístas.

Em uma de minhas viagens para a Índia alguns anos mais tarde, visitei Janaki em seu distante retiro no Himalaia. Ela veio me ver vestida com um sari (vestiário das mulheres hindus), e com seus terços de reza. Com exceção de sua aparência suave, estava indistinguível comparada às saddhus que andavam pela Índia. Então, ela me levou para sua caverna. Quando meus olhos se ajustaram a escuridão, a primeira coisa que vi, exibida de um modo notável na parede da caverna, foi um cartaz indescritível em hebraico com o nome de D'us cercado por passagens Bíblicas hebraicas.

Essa cena foi estranhamente simbólica. Entre toda a decoração de uma pessoa altamente comprometida com as práticas hindus havia uma identidade judaica estimada escondida secretamente.

Esta incompatível justaposição vive nos corações de muitos judeus que seguem caminhos espirituais orientais. Sylvia Boorstein é uma professora popular de meditação budista, autora e fundadora do Centro de Meditação de Spirit Rock. Em seu livro That's Funny,You Don't Look Buddhist, descreve como foi dolorosamente difícil para se definir como uma budista antes de dizer que é judia. Até como uma participante budista numa importante conferência, quando chegou sua vez de dizer o nome e a religião a única coisa que conseguiu dizer foi: "Meu nome é Sylvia Boorstein. Cresci como judia e ensino meditação budista."

Ela escreve: "Alguns amigos meus, cientes de meu grande respeito por meu conhecimento budista e de minha dedicação para praticar, ficaram surpresos com meu renovado interesse no Judaísmo. "Por que?," imaginavam, "você quer se confundir com o Judaísmo?" Mas, isso não é uma pergunta para mim, não decido se quero ou não me confundir com o Judaísmo. Eu já estou confusa nele, ou seja, já estou dentro do Judaísmo."

Durante meus 15 anos como um membro monástico hinduísta, tive uma experiência semelhante. Sentindo-me espiritualmente insatisfeita com minha educação conservadora judaica, busquei e encontrei um caminho satisfatório na meditação e nas práticas espirituais hinduístas. Às vezes, porém, sinto-me como uma esposa que se divorciou de seu primeiro marido, pois este nunca trazia para casa um cheque de pagamento e se casou com um segundo marido que a apoiava em grande estilo só para poder ter a sensação de que sempre que se encontra com seu primeiro marido, inexplicavelmente, saberia que ainda o ama.

Para muitos judeus que seguem caminhos orientais de vida, sua dupla identidade permanece ambivalente. Para outros, representa um conflito violento. David Gottlieb, que cresceu reformista, é um escritor que trabalhou em teatro e relações públicas. Depois de anos de estudo e prática budista num centro Zen próximo a Chicago, recebeu a ordenação, em 2002, de Zen Budista. "Eu sou um judeu Zen que se esforça para solucionar estas duas identidades," escreve.
Já que mais de um quinto de todos os americanos budistas são judeus, esta identidade dupla, talvez se espalhe."Minha prática Zen causa um crescente desconforto e atrito, não só comigo mesmo, mas também com minha esposa.". Com o tempo, percebi que certos elementos de meditação budista são extremamente úteis para mim como pessoa, mas a adoção do budismo como religião pode ser uma fonte de divisão interna e externa."

O conflito religioso do David se agravou por causa de sua esposa Galit, que tem uma forte identidade e educação judaica. Pouco tempo depois de começar a meditar no centro Zen, David trouxe Galit para ver o centro e conhecer sua professora, uma sacerdotisa Zen.

Lá, a sacerdotisa, vestida de modo conservador, cumprimenta minha esposa e mostra-lhe o corredor de meditação...

"Por que há estátuas em todos lugares?" minha esposa pergunta.

"Bem," minha professora de meditação diz, "as estátuas da Buda são como lembranças da essência do que chamamos "Natureza de Buda." Elas representam um certo tipo de presença essencial, ciente, e firme do que cada um de nós possui e que podemos cultivar em nós mesmos."

"Na minha religião," minha esposa fala asperamente, " chamamos isso de adoração de ídolo, o que é estritamente proibido."

"Bem..." minha professora começa a falar.

"Oh," minha esposa interrompe, "a propósito, é a religião do meu marido também. E é a religião com que criamos nossos filhos, portanto não existe nenhuma confusão."

"Entendo," a professora de meditação diz.

Depois começo a olhar fixamente para meus sapatos.

Experiência e ignorância

O conflito de David continuou a aumentar conforme se envolvia mais nas práticas Zen, mesmo enquanto ainda freqüentava a sinagoga Conservadora. Finalmente, o desconforto de sua esposa tornou-se insuportável e esta lhe disse: "David, suas práticas budistas são como facadas no meu coração."

Naquele ponto, David decidiu escrever para o Rabino Akiva Tatz, médico sul-africano e autor com reputação para examinar as profundezas espirituais do Judaísmo. Visto que a afinidade de judeus para seguirem caminhos orientais é uma grande atração comparada à aversão em relação a muitos aspectos do que consideram ser o Judaísmo, David buscou respostas para as questões que o desligaram do Judaísmo. Com honestidade apaziguadora, classificou suas 15 perguntas, "As reclamações de um judeu budista em relação ao Judaísmo e comparações entre Judaísmo e práticas Zen".

" São reclamações ou objeções," David escreveu ao Rabino Tatz, "devido em parte a minha experiência e em parte a minha ignorância."

Todo saber verdadeiro começa com uma admissão implícita de ignorância. A maioria dos judeus que rejeita o Judaísmo atribui suas reclamações à experiência negativa da escola hebraica, das ostentosas sinagogas, e das inexpressivas lições de bar/bat mitzvah. Muitos anos atrás, ouvi uma fita de uma discussão de Ram Das, Jack Kornfield, e alguns eruditos em espiritualidade oriental discutindo uma questão parecida com: "Por que não se relacionar com o Judaísmo?" Esta discussão enfocava somente em experiências negativas crescendo como judeu. Nenhum deles mencionou a possibilidade de que talvez, só talvez, nunca aprenderam Torá de um modo mais profundo como aprenderam sobre o budismo ou hinduísmo.

Ao admitir que suas "reclamações" eram, em parte, devido a sua própria ignorância, David Gottlieb se abriu para um diálogo com um rabino erudito brilhante em sua forma de compreender a espiritualidade judaica. Sua correspondência de dois anos foi publicada recentemente como um livro, "Letters to a Buddhist Jew" Em sua profundidade e sabedoria, é, na minha opinião, um dos livros judaicos mais importantes publicados em inglês nos últimos tempos.

Deus e o budismo

As 15 perguntas de David Gottlieb abordam assuntos como D'us, escolhas versus. universalidade, auto-conhecimento, Torá de Sinai, legalismo, vazio espiritual, sofrimento, meditação, e alegria. Embora um pouco dessas perguntas se relacionem com conceitos budistas básicos como "o vazio," a maior parte das perguntas e todas as respostas profundas do Rabino Tatz se relacionam a assuntos que edificam qualquer pensamento judeu.

O livro analisa todas as diferenças importantes entre budismo e Judaísmo. A principal diferença relacionada a D'us. O budismo é uma religião ateísta. O Buda, em todos seus ensinamentos, nunca mencionou D'us.

David: Embora o budismo não negue a existência de uma força divina trabalhando no Universo, não foca num D'us que deve ser obedecido ou, mais ainda, deve-se acreditar Nele. O budismo focaliza no que pode ser experimentado, mas mesmo assim muitos acreditam que conhecem e sentem D'us. Será que realmente podem?

Rabino Tatz: David, o que significa "não negar"? Se isso significa aceitar a existência de D'us, então não investigar o que é D'us, iria ser loucura ou propositadamente mal...

Se, porém, "não negar" significa simplesmente "não ter nenhum interesse," encontramos um problema lógico. Não há nada mais importante do que a existência de D'us. Na luz da existência de D'us tudo, literalmente, tem proporções imensamente grandes; não só as obrigações morais, por exemplo, entenda-se com isso tudo, inclusive a própria noção de significado. Num Universo ateu qualquer coisa realmente importa?

Uma segunda divergência é aquela que diz que o budismo, como todos os caminhos meditativos, afirma que o meditador pode experienciar diretamente a realidade atual; não é preciso se submeter a convicções nem comprovar sua experiência pessoal. O rabino Tatz analisa esta alegação. Ele enfatiza que negar a realidade de tudo que não pode ser diretamente experimentado não é somente egocêntrico, mas também uma limitação espiritual: "Não importa o quanto larga minha consciência possa ser, se eu nunca abordar dimensões além da minha percepção consciente, posso excluir a parte mais importante da realidade do meu ponto-de-vista em relação ao mundo e ao meu trabalho."

Outra diferença chave é a prática que constitui cada um destes caminhos espirituais. Os "Oito Passos" budistas incluem pensamento, modo de se comunicar e estilo de vida justo. É um processo requintado de trabalhar consigo mesmo, para aumentar a consciência (ter mais atenção e cuidado) e eliminar obstáculos a fim de atingir um maior esclarecimento. O enfoque está, basicamente, em si mesmo. Já a prática essencial do Judaísmo, por outro lado, é a execução de mandamentos como um meio de desenvolver uma relação com D'us. Seu enfoque não é em si mesmo, e sim na relação com D'us.

O Rabino Tatz afirma também que o "budismo pressupõe não mais do que sua própria visão de desenvolvimento humano, o treinamento da mente e o refinamento das experiências para a exclusão de uma relação com D'us; se houver consciência do Universo sem consciência de sua Fonte já é suficiente. Porém, isso não seria válido para judeus."

Ironicamente, muitos budistas consideram D'us como um conceito limitado, como uma armadilha mental que deve ser evitada na procura pelo "vazio" puro. Sylvia Boorstein conta como, no meio de um prolongado retiro de meditação, experimentou o que entendeu ser a "presença" de D'us. Quando contou este fato a sua professora, esta lhe disse: "Tome cuidado Sylvia, não materialize esta idéia."

Todas estas estátuas são ídolos?

O capítulo sobre idolatria é cintilante em seu brilho. Embora os judeus budistas sejam inflexíveis em relação às estátuas de Buda tão onipresentes nos centros de budismo, no fato de que estas não constituem idolatria porque são como uma ajuda, um amparo para a meditação, representando a tranqüilidade, concentração, o Rabino Tatz explica que este é o ponto crucial da idolatria.

Depois de uma detalhada explicação sobre a "corrente de devolução de causas" dos mundos mais altos até os mais baixos, o mundo físico, define idolatria como "a idéia de não se referir a Fonte Divina de toda a existência, e sim aos canais que trazem energia ao mundo." E qual é o motivo em enfatizar algo menor do que D'us? "A razão fundamental para esquecer a Fonte e lembrar-se somente dos níveis intermediários é a mais básica de todas: o enfoque em si mesmo."

Enquanto é fácil perceber que um idólatra que adora o deus da chuva tem somente sua colheita e prosperidade em mente, o Rabino Tatz mostra como todo enfoque nos canais intermediários, como as mais sutis e sofisticadas ilustrações de astrologia, é realmente um produto de egocentrismo. Igualmente então, uma estátua de uma deidade pagã e uma estátua de Buda representa projeções de si mesmo:

A diferença essencial [entre Judaísmo e idolatria] é: o serviço verdadeiro compreende que D'us é tudo e eu estou aqui para serví-lo; a idolatria entende que eu sou tudo, e meus deuses estão aqui para me servir. ... Você notará que aquelas imagens de adoração idólatra freqüentemente possuem formas humanas. A idolatria é realmente adoração de si mesmo, e as estátuas esculpidas são projeções de si mesmo.

Ficar do lado de fora

Em vários diferentes pontos de sua correspondência, David menciona o problema da acessibilidade. Enquanto budismo é "extremamente acessível,"escreve, o "Judaísmo, por outro lado, é confusamente inacessível, e quanto mais fundo tentamos ir, mais densas e difíceis as práticas das leis, os textos e as crenças ficam."

David: O nível mais alto de sabedoria judaica não atinge mais nem uma lasca do povo judeu. Corremos perigo de nos tornarmos uma aristocracia, onde poucos conseguem investigar, pesquisar mais profundamente as leis, enquanto a maioria das pessoas está, cada vez menos equipada e preparada. As pessoas estão ainda mais entorpecidas e afastadas por não possuírem o conhecimento judaico que somente os mais iluminados têm".

Rabino Tatz: Quem está lhe excluindo? O conhecimento da Torá está disponível para quem quiser. Porém, não há dúvidas de que deve haver um esforço, mas está disponível para qualquer pessoa que estiver pronta para investir neste esforço. Certamente nossos sábios são a aristocracia, mas a Torá não é herdada, é adquirida através da devoção da pessoa. Dizem que a Torá não é uma autoridade aristocrática, e sim uma democracia de oportunidades...

Ninguém está sendo excluído de Torá mais que do que do budismo; da mesma maneira que se esforçou para descobrir o budismo, um esforço também deve ser feito para descobrir o Judaísmo. É verdade que existe um problema de idioma e uma falta de habilidades textuais, mas estes obstáculos não são intransponíveis...

Você não pode ficar do lado de fora da porta aberta e reclamar por ser excluído. Entre! E traga seus filhos.

Enfim, qualquer judeu budista que seja verdadeiro com seu budismo deve se empenhar para alcançar o Judaísmo, pela pura e simples razão de que o budismo apóia a Lei do Karma. Mais ou menos 14 anos atrás, Ram Das (nascido com nome de Dick Alpert), o professor espiritual oriental mais procurado na América, foi um convidado em minha mesa de Shabat, na Cidade Velha de Jerusalém. Quando perguntamos por que fez esta peregrinação para Jerusalém, o que incluía conversar com alguns dos principais rabinos, Ram Das respondeu que deveria enfrentar a realidade de que tinha nascido judeu. Claramente sentiu que existia algo que deveria aprender sobre o Judaísmo.

As objeções de David Gottlieb são, segundo ele, baseadas em ambas experiência e ignorância. Nada há como se desfazer das experiências negativas, do sentimento de superficiabilidade e estagnação espiritual dos judeus que cresceram nesta tendência atual da América Judaica. Há, porém, um antídoto para a ignorância: Letters to a Buddhist Jew.

Publicado no domingo, 15 de maio de 2005